O Natal está aí, e neste tempo de Advento, tempo de reflexão e de renascimento, gostaria de vos propor a leitura deste conto, como forma de preparação para a próxima sessão de catequese que está a ser preparada pelo catequista Augusto Duarte;
De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste oficio, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser… Por isso, que remédio senão alargar os horizontes e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam… Lá se tinha fé na oração, isso é outra conversa. E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas, se o mundo fosse doutra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Podia ter ficado em Loivos, mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoura nativa… E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor seria do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso era melhor, sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas. O problema era lá chegar, a serra nunca mais acabava e setenta e cinco anos, parecendo que não é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando deu por ela passava das quatro. E, como anoitecia cedo, não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra parecia coisa ligeira, mas se pegasse a valer? E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa … Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama! Com patorras de elefante e branco como um moleiro, chegou ao adro de ermida. Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Vá lá! De mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida… Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora, o diabo era arranjar lenha. Saiu, apanhou um braçado de carqueja, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas. Tentou mais três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos, é que não. Lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel. Encontrou e agradecido ao Céu por aquela ajuda, olhou para o altar. Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também. Contente, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, mas paciência. Na altura da romaria que arranjassem um novo. Daí a pouco a madeira seca ardia que regalava. Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha da algibeira, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas, antes da primeira dentada, a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou à entrada da capela. - É servida? A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também. Diante daquele acolhimento, o Garrinchas não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para perto da fogueira. - Consoamos aqui os três. A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José. Conto de Miguel Torga, adaptado
Sem comentários:
Enviar um comentário